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Programação

  • 22 jun 28 jun 2017

    ALÉM DAS PALAVRAS [ SEGUNDA SEMANA ]

    Além das palavras [ Primeira Semana]

    Direção –   Terence Davies
    Reino Unido, Bélgica, 2016, 2h05m
    Com Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Jodhi May

    → 22 a 28 de junho (exceto 25 e 26 de junho)
    Horário: 16h40

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação 12 anos

    Sinopse

    Baseado na história de vida e no trabalho da grande poetisa americana Emily Dickinson (Cynthia Nixon), acompanhamos seu trajeto desde os primeiro dias como uma jovem estudante até seus últimos anos como uma artista reclusa e quase irreconhecida. Uma mulher tímida, mas com ótimo senso de humor e amizades intensas. Emily escrevia praticamente um poema por dia, porém, apenas parte da sua obra foi publicada em vida.

    Sobre o filme – Alexandre Agabiti Fernandez, para Folha de SP

    Quem só conhece Cynthia Nixon da série “Sex and the City”, na qual interpreta a cáustica Miranda, vai se surpreender ao vê-la no papel principal deste retrato da poeta norte-americana Emily Dickinson (1830-1886), dirigido com inventividade pelo inglês Terence Davies.

    Nascida numa família burguesa da Nova Inglaterra, já na juventude Dickinson surpreendia as pessoas do seu meio com provocações à moral dominante e à posição da mulher naquela sociedade austera usando uma linguagem cheia de vivacidade.

    Logo no início, a cena em que a família recebe a visita de uma tia, que se retira escandalizada com as opiniões da jovem, dá perfeitamente a medida do desembaraço desta com as palavras.

    Começou a escrever poesia com cerca de 20 anos e deixou quase 1.800 poemas. Apenas um punhado deles foi publicado em vida, o que não a impediu de ser considerada uma das maiores poetas de língua inglesa. Seus poemas são densos e concisos, repletos de imagens e sonoridades.

    Mais conhecida por meio de clichês –solteirona amargurada, louca”" do que propriamente por sua obra, Emily Dickinson passou boa parte da vida voluntariamente reclusa na casa da família.

    A poeta descrita por Davies rompe com o lugar-comum: é uma mulher culta, de espírito independente e dona de um humor mordaz.
    Nixon compõe esse personagem complexo, com muita competência, dando naturalidade a diálogos que poderiam soar empolados.

    Alguns dos poemas de Dickinson assumem a forma de falas surpreendentemente desenvoltas. Seu progressivo isolamento é magnificamente evocado na narrativa, pois Dickinson “desaparece” perto do final, sua presença se dá apenas pela palavra, pela poesia.

    A “mise en scène” de Davies pode parecer banal à primeira vista, mas brilha pela precisão, desprezando as pomposas convenções do filme de época. Com movimentos suaves e sinuosos, a câmera acompanha os personagens, se relaciona com eles; as belas panorâmicas exploram os espaços e reiteram a solidão da poeta. A fotografia trabalha minuciosamente a luz.

    Essa paleta de recursos é ainda mais notável pelo fato de praticamente toda a história transcorrer na casa e no jardim. Davies caracteriza o confinamento metafísico de Dickinson e sua ânsia criativa preservando todo o mistério em torno dela e de sua poesia.

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  • 22 jun 28 jun 2017

    NA VERTICAL [ PRIMEIRA SEMANA ]

    Na vertical [ Cannes Film Festival (2016) ]

    Direção –  Alain Guiraudie
    França, 2016, 100 min
    Com Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry, Christian Bouillette, Basile Meilleurat, Laure Calamy, Sébastien Novac

    → 22 a 28 de junho (exceto 25 e 26 de junho)
    Horário: 19h

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação 18 anos

    Sinopse

    Leo está à procura de um lobo. Durante uma caminhada no sul da França conhece Marie, uma pastora de espírito livre e dinâmico. Nove meses depois, nasce o filho dos dois. Sofrendo de depressão pós-parto e sem fé em Leo, que vai e vem sem aviso, Marie os abandona. Leo encontra-se sozinho, com um bebê para cuidar. Através de uma série de encontros inesperados e incomuns, o filme apresenta várias camadas subjetivas que nos apresentam a natureza, o sexo, o onírico, a velhice, a morte, a complexidade da vida. Leo vai fazer o que for preciso para se manter de pé.

    Sobre o filme – Silvano Mendes, para Folha de SP

    ‘Na Vertical’ é o meu filme mais ‘queer’, diz diretor Alain Guiraudie

    Estreia esta semana no Brasil “Na Vertical”, o mais recente filme de Alain Guiraudie. Visto como um dos cineastas franceses mais alternativos do panorama atual, ele traz mais uma vez às telas uma outra imagem da França, longe de Paris e seus clichês, abordando temas raramente mostrados.

    Depois do sucesso de “Um estranho no lago”, premiado em Cannes e selecionado em vários festivais pelo mundo, o diretor rompe novas fronteiras. Se no filme anterior ele deu o que falar ao mostrar – com cenas de nudez e sexo explícito – os flertes homossexuais em uma praia naturista, desta vez o cineasta conta a história de um jovem fascinado por lobos, que tenta escrever um roteiro, mas que acaba vagando pelo interior da França com um bebê nos braços.

    Por mais “bizarro” que pareça, o tom é típico das obras de Guiraudie, conhecido por sua originalidade. “Na Vertical” aborda, por exemplo, temas como a eutanásia e outros e “medos” ocidentais, além de explorar questões como a teoria do gênero e a gerontofilia. “Eu sabia que depois do prêmio em Cannes seria muito mais fácil levantar dinheiro para a produção seguinte, então senti que era o momento de ousar, tentar algo diferente”, comenta o diretor, com seu sotaque típico do sudoeste francês, durante passagem por Paris. Em entrevista exclusiva à “RFI”, o cineasta, que tem entre suas inspirações nomes como o brasileiro Glauber Rocha, fala sobre sua maneira de fazer um cinema com pitadas de estranheza, entre naturalismo e onirismo.

    Como você definiria “Na Vertical”?
    Fiz esse filme como algo entre sonho e realidade, entre aventura e cotidiano, entre comédia e tragédia. Podemos falar de um cinema de gênero, bastante onírico.

    Porém, mesmo se é um cinema do sonho, “Na Vertical” aborda uma realidade contemporânea e fala de um mundo que está desaparecendo. Como esses velhinhos sentados na beira da estrada, vendo os carros passar, que eu mostro no filme. Mesmo se me inspirei na minha infância, tem muita coisa que vem de gente como David Lynch e George Romero. Tem uma cena, na qual Léo é atacado por mendigos, que representa um pesadelo ocidental. Mas também tinha na cabeça “A Noite dos mortos-vivos”.

    Há sempre essa vontade transpor preocupações contemporâneas em seu universo?
    Essa é uma preocupação constante. Sempre tento fazer ficção com coisas do cotidiano. Temas como a teoria de gênero, o casamento gay, a paternidade para homossexuais ou ainda a eutanásia são questões que planam neste filme. É muito difícil fazer um cinema político e social que aborde essas questões as inserindo em um projeto estético. Então a solução que eu encontrei, por enquanto, foi misturar o sonho. Quando eu faço um filme, sempre tento propor uma visão singular do mundo, mostrando os problemas da sociedade de um outro ponto de vista.

    Como quando você mostra uma outra França, filmada sempre fora de Paris e de preferência no mundo rural?
    As pessoas sempre me falam sobre isso, pois há poucos cineastas franceses que não filmam em Paris. Sempre me perguntam se o que eu mostro na tela é verdade ou mentira, se ainda há pessoas que vivem assim na França. E eu gosto de alimentar essa ambiguidade. É como a história do lobo em “Na Vertical”. É um elemento emblemático, pois trata-se ao mesmo tempo de um problema real no país, que dificulta a vida dos agricultores, e de um animal lendário, quase mitológico. Eu filmo esse mundo pois cresci no interior e em cidades pequenas. Mas é também uma posição política, que consiste em defender a vida fora das grandes metrópoles. Existe uma vida além das grandes cidades.

    Seu elenco também sai dos padrões clássicos de beleza, de idade ou de tipo físico.
    Eu gosto de pessoas que têm um físico mais marcado pela vida. Busco a beleza onde não temos o hábito de procurá-la. Mas há também a dimensão política, pois desde os anos 1980, as revistas, a televisão e o cinema nos dão a impressão que os pobres e os agricultores não têm direito a uma sexualidade, a uma homossexualidade e nem mesmo a uma sensualidade. Eles são completamente excluídos. Além disso, há uma espécie de estandardização na nossa sociedade, que procura mostrar apenas tipos físicos asseptizados. Antes era possível ser uma grande estrela em Hollywood sem entrar em padrões clássicos de beleza. Como Humphrey Bogart ou, aqui na França, Fernandel, Belmondo e Depardieu. Mas no mundo moderno parece que estamos o tempo todo procurando modelos de revistas de moda. Isso é muito penoso para mim, então eu tento ir contra o star system.

    Além disso, você aborda diferentes formas de sexualidade no filme.
    Mesmo se “Um estranho no lago” tinha uma dimensão homoerótica onipresente, vejo “Na Vertical” como o meu filme mais queer. Digo isso porque ele aborda algumas sexualidades que podem ser vistas como depravadas. O personagem principal transa com homens e tem um filho com uma mulher. Mas isso faz dele um homossexual ou um heterossexual? O filme questiona sobre outros tipos de sexualidade e também outros tipos de famílias.

    O mundo assiste a uma onda de conservadorismo, seja nos Estados Unidos, na Turquia ou na América Latina. Na França, alguns candidatos à eleição presidencial dão a impressão que até mesmo os direitos conquistados podem ser perdidos. Ao mostrar outras formas de família, você espera que seus filmes chamem a atenção para essas questões?
    Eu sempre acreditei no rumo da história. Na minha cabeça, os direitos conquistados eram definitivos. Mas agora, até os valores tradicionalmente de esquerda começam a se aproximar da direita. A gente dizia que a abolição da pena de morte nunca seria contestada, mas vivemos um momento em que tudo pode ser questionado e podemos viver um retrocesso, mesmo se esse retrocesso pode ser visto como um avanço para alguns. Os conservadores têm o dom de apresentar suas ideologias como algo revolucionário.

    E qual o papel do cinema nesse contexto?
    Abrir os horizontes. Mostrar um mundo diferente, com outras possibilidades. Mesmo se não são meus preferidos, a ficção de esquerda e o cinema social contribuem para que avancemos. Um filme como o brasileiro “Aquarius” tem esse papel. Eu não subestimo a importância desse cinema. A imagem de Kléber Mendonça subindo as escadarias do festival de Cannes com sua equipe no ano passado foi um momento muito forte. Até então, pouca gente no exterior sabia o que estava acontecendo no Brasil. Até aquele protesto, muita gente pensava realmente que Dilma havia sido corrompida.

    Você acompanha o cinema brasileiro?
    Conheço pouco o Brasil, mas lembro que quando estive lá pela última vez vivi uma cena engraçada. Eu disse durante uma conferência que estava muito contente por visitar o país de Glauber Rocha, que foi muito importante na minha carreira. Para minha surpresa, a viúva dele estava na sala e eu pude encontrá-la! Mas vi pouca coisa recente do cinema brasileiro. Na região, tenho acompanhado mais o trabalho de gente como os argentinos Lucrecia Martel e Lisandro Alonso. Já aqui na Europa, tenho muita afinidade com o português João Pedro Rodrigues. Sem esquecer os coreanos. Estou numa fase em que vejo muitos bons filmes coreanos.

    Você concorda quando te definem como um cineasta atípico?
    Eu acho que ser atípico deveria ser a norma no cinema. Cada um deve buscar seu caminho, sua visão do mundo e mostrar sua singularidade. Deveria ser um pleonasmo. Mas se as pessoas falam de atípico em oposição a acadêmico, então sim, me reconheço nessa definição. Se for para fazer como outros já fizeram, não me interessa.

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  • 22 jun 28 jun 2017

    DIVINAS DIVAS [ PRIMEIRA SEMANA ]

    Divinas Divas [ Festival do Rio 2016 ]

    Direção –  Leandra Leal
    Brasil, 2016, 1h50m
    Com Jane di Castro, Rogéria, Divina Valéria

    → 22 a 28 de junho (exceto 22, 25, 26 e 27 de junho)
    Horário: 20h45

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação 12 anos

    Sinopse

    Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros. O documentário acompanha o reencontro das artistas para a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e memórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época.

    Sobre o filme – Lígia Mesquita para Folha de SP

    Leandra Leal lança documentário ‘Divinas Divas’ com trio na Parada Gay

    Sentada em uma cadeira em sua casa, no Rio, de peruca curtinha de cor chocolate, blusa e brincos de estampa de oncinha e longas unhas postiças vermelhas, Fujika de Halliday pergunta, com um riso tímido: “Eu sou diva, será?”. Diva, diz a atriz, é palavra e coisa muito séria. “Diva é diva, né? São essas mulheres maravilhosas, como a Maria Callas.”

    Para a diretora Leandra Leal, Fujika é uma diva, sim, assim como Brigitte de Búzios, Camille K., Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Jane Di Castro, Marquesa e Rogéria, artistas travestis pioneiras no Brasil, que são retratadas no documentário “Divinas Divas”, com estreia nesta quinta-feira (22).

    “Elas são divas para mim. São pessoas que colocam a arte acima de tudo, que têm dignidade e dedicação à sua arte. Diva, pra mim, é ter isso acima de tudo”, diz Leandra, 34, à Folha, por telefone.

    O longa, primeira incursão na direção da conhecida atriz de televisão e cinema, ganhou prêmios do público nos festivais do Rio e no americano SXSW. E terá, neste domingo (18), um trio elétrico na Parada Gay, em São Paulo.

    Apesar de dialogar bastante com a comunidade LGBT, “Divinas Divas” não tem pretensão de tratar a questão de identidade de gênero no Brasil. Está mais para um filme de amor à arte feito por uma artista para suas colegas.

    “Fiz um filme sobre oito artistas que admiro, não fiz um documentário sobre travestis, sobre trans. Claro que, por elas serem pioneiras, acabam contando muito da história do travestismo no Brasil, mas não é essa a intenção”, diz.

    A diretora, contudo, espera que o longa ajude a diminuir preconceitos no país. “Um dos maiores elogios que ouvi após uma sessão foi: ‘Nunca mais vou olhar um travesti como eu olhava’.”

    HISTÓRIAS CRUZADAS
    No início do documentário, a diretora explica, por meio de uma narração em off, de onde vem sua relação com essas artistas que nasceram homens, mas decidiram se vestir (e/ou viver) como mulheres, no palco ou fora dele.
    Foi nos bastidores do teatro Rival, no Rio, que pertenceu ao avô de Leandra, Américo Leal, que muitas dessas performers se apresentaram a partir dos anos 1960.

    Em uma de suas falas, Leandra conta as memórias das festas e espetáculos do Rival e das lembranças de seu pai e seu padrinho, que eram gays. A atriz conta que, após três anos montando o filme, decidiu se colocar também na obra. “Assim como elas estavam expostas, achei que eu tinha que me expor.”

    Em 2004, quando o Rival completou 70 anos, a mãe de Leandra, a também atriz Angela Leal, convidou Jane Di Castro para montar o espetáculo “Divinas Divas”.

    A partir dali, Leandra passou a conviver com as personagens de seu filme.

    Anos depois, ela, que se imaginava estreando na direção com uma ficção, decidiu que faria um documentário sobre aquelas mulheres durante a montagem, em 2014, do novo “Divinas…” que comemoraria os 50 anos de carreira das artistas.
    Para conseguir filmar, Leandra fez um crowdfunding em 2013 e arrecadou pouco mais de R$ 150 mil.

    A atriz, na época, não conseguiu patrocínios. “Tive recusas por causa dos temas, falar de travestis e de envelhecimento, dois tabus que existem no Brasil.”

    CHORO E RISO

    O filme mostra os ensaios do show “Divinas Divas”, assim como o espetáculo em si, além de trazer ótimos depoimentos das artistas. Fotos, jornais e filmes servem para costurar e contextualizar as histórias contadas, muitas da época da ditadura.
    Algumas passagens contadas são muito tristes, como a das internações em sanatórios de Marquesa (que morreu em 2015, aos 71 anos) e Brigitte, para se “curarem”.

    Há também momentos de riso e deboche –por exemplo, de Rogéria, 74, ao se definir como “o travesti da família brasileira”.
    Para Jane Di Castro, 69, essa mistura de emoções e uma certa nostalgia são coisas ótimas do filme. “Acho importante falar das nossas dificuldades. A gente era presa se saísse de mulher na rua. Essas trans novas reclamam muito da liberdade, imagina na nossa época”, fala.

    Rogéria acha que “Divinas…” estreia num momento oportuno. “Houve um retrocesso terrível na democracia. As pessoas não respeitam professores, as mulheres continuam apanhando. As bichas reclamam, mas as mulheres apanham muito.”

    Para ela, o longa pode ajudar a mudar a visão de algumas pessoas. “Os gays são seres humanos maravilhosos. Os grandes nomes da arte, Oscar Wilde, Tennessee Williams, tudo gay. Mas, para ser gay, tem que ser inteligente. A bicha que não estuda vai ficar a ver navios.”

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  • 27 jun 2017

    [ Cinelixo no 104 ] O IMPÉRIO DO DESEJO

    [Cinelixo no 104 - Sessão comentada] O império do desejo

    Direção – Carlos Reichenbach
    Brasil, 1981, 106 minutos

    → 27 de junho, terça-feira
    Horário: 
    20h45 
    ENTRADA GRATUITA, com distribuição de ingressos 30 minutos antes da sessão.
    Classificação indicativa – 16 anos

    Sandra, viúva de um milionário, vai ao litoral recuperar sua casa de praia tomada por grileiros. Na estrada dá carona a um casal de hippies. Auxiliada por Carvalho, um advogado picareta, Sandra recupera a propriedade e convida o casal de caronas a assumir a função de caseiros. A partir daí o casal vai gradativamente se envolvendo com uma galeria de personagens insólitos, incluindo a própria viúva, seu namorado e o advogado, que se apaixona perdidamente pelos dois.

    Logo após a sessão, o longa será comentado por Flávio C. Von Sperling, e haverá um debate para uma troca de impressões e ideias sobre o filme.

    Sobre o filme

    A narrativa de Império do Desejo (inicialmente intitulado “Anarquia Sensual”) trabalha com uma certa unidade de espaço constante nos filmes de Reichenbach, é posssivelmente aquilo que ele chamou de “busca de uma geografia própria” na coluna que publicou recentemente no portal Cineclick – parte-se de uma situação básica em que personagens se isolam em uma casa e a relação que se estabelece provoca entre eles um ritual de transformação, de amadurecimento. Dois anos mais tarde, Extremos do Prazer chegaria ao limite (extremo?) dessa unidade, de certa forma retomada em Dois Córregos. No caso de Império…, o espaço central é uma casa na praia, para a qual vai a recém-viúva Sandra, interpretada por Meiry Vieira, no início do filme, depois de contar para nós e para seu amante boçal que só descobriu a existência do lugar depois da morte de seu marido – graças a um rábula da região, o doutor Carvalho, interpretado por Benjamin Cattan, que a procurou para expulsar os grileiros que tomavam a propriedade. No caminho, conhece um casal de “hippies extemporâneos”, Lucinha e Nicolau (ou apenas Nick), interpretados por Márcia Fraga e Roberto Miranda, ela ainda menor, ele já na faixa dos 35 anos. Sandra dá uma carona aos dois e, mais tarde, contrata-os como caseiros pelo período de uma semana, para desespero do dr. Carvalho. Na casa de dois cômodos não há mais que uma cama, mesa, panelas, uma vitrola e dezenas de discos com a música americana dos anos trinta e quarenta que tempera um certo tom satírico no filme.

    Sandra parte e lá deixa o casal, depois de descobrir o apetite físico dos dois e descobrir também, um pouco assustada, que na região mora um louco, um “anjo vingador”, “um ex-tudo que liquida a porretadas: proselitistas renitentes, turistas predatórios e boçais de toda a espécie”, segundo o diretor, no mesmo artigo já citado. Este personagem, o profeta Di Branco – interpretado pelo poeta Orlando Parolini, amigo do realizador e inspirador do personagem –, é chave central para se entender as idéias e o espírito de Império do Desejo, uma vez que ele empresta uma fúria à narrativa que traz um tremendo estranhamento a uma comédia erótica que versa sobre liberdade e amor.

    O filme inteiro parece se basear nos conflitos e conciliações desses dois conceitos, amor e liberdade, sugerindo uma alternativa à autoritária união de ordem e progresso e repensando e pondo em crise essa alternativa, sem pudor e com pouco tato. A história norteia isso através de três conflitos centrais: um, a liberação dos travadões, primeiro Sandra e em seguida o dr. Carvalho; segundo, o amadurecimento da relação do casal ‘hippie’, passando por experiências sexuais diversas e pelo conflito do ciúme; e, terceiro, a eliminação impaciente e despudorada dos ‘boçais de toda a espécie’ pelo anjo vingador, que não ataca nenhuma vez personagens que estejam se transformando, demonstrando clara preferência por aqueles que parecem ter idéias congeladas na cabeça – quando as têm.

    A partir da saída de Sandra, estes ‘boçais’ vão se apresentando – com exceção do namorado dela, Odilon, que já aparecera no prólogo –, às vezes invadindo o cotidiano do casal, como no caso das duas garotas reprimidas interpretadas por Aldine Müller e Martha Anderson ou dos dois bandidos que surgem fazendo referência ao clássico Bang-bang, às vezes fugindo completamente à trama central, como acontece com o casal porcalhão que toma sol demais e suja tudo à sua volta – lembrando A Mulher de Todos – ou com a chinesa que invade a praia para entrevistar Di Branco para um jornal subversivo e transa loucamente com ele, citando toda sorte de chavões comunistas (“O movimento deve vir das bases, de baixo para cima”, diz ela enquanto transa com o poeta), até ir parar no caldeirão em que ele cozinha algumas das suas vítimas.

    Tentado pela beleza de Lucinha, o dr. Carvalho leva duas prostitutas para entreter Nick enquanto tenta seduzir ela, que se entrega por gratidão e sem tesão – levando Nick a se perguntar, enciumado, “onde acaba o libertário e começa o promíscuo”. Afinal de contas, o amor livre do casal hippie não pode ser a versão jovem da suruba burguesa, como já comentou uma amiga comigo. O drama de Nick é descobrir onde se realiza na prática essa diferença.

    No dia seguinte, Carvalho se dá conta do quão errada foi sua atitude e pede que considerem que não era esta sua intenção. Perdoado pela menina, ele ganha, atônito, um beijo na boca de Nick, para diversão das duas prostitutas e extremo desagrado seu – “Eu sou pai de família, porra, ninguém pode fazer isso comigo!…”.

    Sandra volta à casa junto com Odilon, seu desagradável namorado, levando o questionamento do casal ao limite do insuportável, uma vez que Lucinha cai de amores pelo galãzinho arrogante, diante do ciúme impassível de Nick, que prefere que os dois “transem logo, para resolver a questão”. Quando Sandra o acusa de estar sendo comodista, ele corrige: comodista não, racional. E desde quando é possível racionalizar sentimentos, cara? Não, não dá, mas é preciso tentar, é o caminho mais maduro. E Nick encara essa, deixando sua mulher transar com Odilon – o que termina sendo uma experiência tremendamente desagradável para ela. Em seguida, num passeio pela praia, o galã boçal cai na besteira de insultar Di Branco e pronto: leva uma paulada na testa e é mais um que desaparece da história.

    Depois de romper seus pudores num clímax antológico com o casal, Sandra parte – “Vida a três é uma barra muito pesada, não tenho estrutura para isso”, diz ela, numa postura semelhante à adotada pela protagonista no filme já citado Extremos do Prazer – e é interceptada pelo chefe dos bandidos. Que, anteriormente, num curto diálogo, possivelmente revelam ter uma outra profissão – é quando um diz ao outro (com a voz do mesmo dublador do Fred Flintstone): “Seu idiota, não se trata mal quem cuida de plantas, eu fui lavrador antes de ser policial”.

    Interceptada, Sandra tem o mesmo destino da protagonista de A Ilha dos Prazeres Proibidos. O final violento – causado por tramas subliminares e absolutamente ocultas – tem algo a ver com o Brasil, virada dos anos setenta para os oitenta? É, né?… O fato é que seria necessário um sem-número de Di Brancos para exterminar a boçalidade predominante e ditatorial.

    Escapa o casal da violência por pura sorte, uma vez que Carvalho os tira de lá, depois de cumprir todo seu ciclo de desrepressão e se assumir bissexual e livre. Empolgado, resolve se libertar de roupas e empecilhos e mergulhar na natureza – no entanto, quem entra n’água tem que saber nadar. Os livres ficam sozinhos para se amar e sobrevivem – para eles a vida é bela – enquanto os quase-destravados morrem. Cada um descobre seus limites aprendendo a não ter medo de viver – mas talvez nem todos estejam preparados para isso.

    E Di Branco não vai conseguir acabar com todos os boçais, mas não é por isso que ele não vai tentar.

    Curioso em saber o que dizia Di Branco quando gritava (meu conhecimento de latim clássico não é grande coisa), entrei em contato com o realizador para descobrir o significado das falas de Parolini. Esclareceu-me Don Carlone: “As falas de Orlando Parolini são extratos de “pessoinhas” como Fernando Pessoa, Henry Miller, Verlaine, Oswald Spengler e outros loucos santos. (…) Na parede do barraco de Di Branco, uma citação de “A Decadência do Ocidente”, de Oswald Spengler”.

    Mesmo com suas porretadas e sua fúria incendiária e assassina, Di Branco parece poder ser definido como gentil, amoroso e ao mesmo tempo um fugitivo cansado de brigar com o mundo – note-se que é a mesma definição adequada a Nick. Na verdade, os personagens são tremendamente aparentados, como descobrimos quando a chinesa revela a Carvalho e a nós que Nick já foi alguém “muito importante”, como também fora Di Branco – não por acaso, Nick é o primeiro a reconhecer Di Branco no filme. Mas, ao contrário do ‘hippie extemporâneo’, Di Branco é um guerreiro teimoso e impaciente – um anjo que veio para nos vingar. Ao contrário do tranqüilo Nick, Di Branco não quer nem saber: mete o porrete!

    Império do Desejo é um desses filmes tão grandes que poderiam justificar toda uma época, todos os desvarios, erros e desacertos – se por acaso precisássemos disso (não precisamos). É desses filmes que terminamos de ver pensando “Que bom que alguém filmou isso!”, é uma irônica, irada e apaixonada redenção do tesão. É um filme tesudo? É sim, muito, mas é mais ainda um filme raivoso e ao mesmo tempo amoroso, livre e libertário.

    Daniel Caetano

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  • 22 jun 28 jun 2017

    ALÉM DAS PALAVRAS [ SEGUNDA SEMANA ]

    Além das palavras [ Primeira Semana]

    Direção –   Terence Davies
    Reino Unido, Bélgica, 2016, 2h05m
    Com Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Jodhi May

    → 22 a 28 de junho (exceto 25 e 26 de junho)
    Horário: 16h40

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação 12 anos

    Sinopse

    Baseado na história de vida e no trabalho da grande poetisa americana Emily Dickinson (Cynthia Nixon), acompanhamos seu trajeto desde os primeiro dias como uma jovem estudante até seus últimos anos como uma artista reclusa e quase irreconhecida. Uma mulher tímida, mas com ótimo senso de humor e amizades intensas. Emily escrevia praticamente um poema por dia, porém, apenas parte da sua obra foi publicada em vida.

    Sobre o filme – Alexandre Agabiti Fernandez, para Folha de SP

    Quem só conhece Cynthia Nixon da série “Sex and the City”, na qual interpreta a cáustica Miranda, vai se surpreender ao vê-la no papel principal deste retrato da poeta norte-americana Emily Dickinson (1830-1886), dirigido com inventividade pelo inglês Terence Davies.

    Nascida numa família burguesa da Nova Inglaterra, já na juventude Dickinson surpreendia as pessoas do seu meio com provocações à moral dominante e à posição da mulher naquela sociedade austera usando uma linguagem cheia de vivacidade.

    Logo no início, a cena em que a família recebe a visita de uma tia, que se retira escandalizada com as opiniões da jovem, dá perfeitamente a medida do desembaraço desta com as palavras.

    Começou a escrever poesia com cerca de 20 anos e deixou quase 1.800 poemas. Apenas um punhado deles foi publicado em vida, o que não a impediu de ser considerada uma das maiores poetas de língua inglesa. Seus poemas são densos e concisos, repletos de imagens e sonoridades.

    Mais conhecida por meio de clichês –solteirona amargurada, louca”" do que propriamente por sua obra, Emily Dickinson passou boa parte da vida voluntariamente reclusa na casa da família.

    A poeta descrita por Davies rompe com o lugar-comum: é uma mulher culta, de espírito independente e dona de um humor mordaz.
    Nixon compõe esse personagem complexo, com muita competência, dando naturalidade a diálogos que poderiam soar empolados.

    Alguns dos poemas de Dickinson assumem a forma de falas surpreendentemente desenvoltas. Seu progressivo isolamento é magnificamente evocado na narrativa, pois Dickinson “desaparece” perto do final, sua presença se dá apenas pela palavra, pela poesia.

    A “mise en scène” de Davies pode parecer banal à primeira vista, mas brilha pela precisão, desprezando as pomposas convenções do filme de época. Com movimentos suaves e sinuosos, a câmera acompanha os personagens, se relaciona com eles; as belas panorâmicas exploram os espaços e reiteram a solidão da poeta. A fotografia trabalha minuciosamente a luz.

    Essa paleta de recursos é ainda mais notável pelo fato de praticamente toda a história transcorrer na casa e no jardim. Davies caracteriza o confinamento metafísico de Dickinson e sua ânsia criativa preservando todo o mistério em torno dela e de sua poesia.

    Detalhes

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  • 22 jun 28 jun 2017

    NA VERTICAL [ PRIMEIRA SEMANA ]

    Na vertical [ Cannes Film Festival (2016) ]

    Direção –  Alain Guiraudie
    França, 2016, 100 min
    Com Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry, Christian Bouillette, Basile Meilleurat, Laure Calamy, Sébastien Novac

    → 22 a 28 de junho (exceto 25 e 26 de junho)
    Horário: 19h

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação 18 anos

    Sinopse

    Leo está à procura de um lobo. Durante uma caminhada no sul da França conhece Marie, uma pastora de espírito livre e dinâmico. Nove meses depois, nasce o filho dos dois. Sofrendo de depressão pós-parto e sem fé em Leo, que vai e vem sem aviso, Marie os abandona. Leo encontra-se sozinho, com um bebê para cuidar. Através de uma série de encontros inesperados e incomuns, o filme apresenta várias camadas subjetivas que nos apresentam a natureza, o sexo, o onírico, a velhice, a morte, a complexidade da vida. Leo vai fazer o que for preciso para se manter de pé.

    Sobre o filme – Silvano Mendes, para Folha de SP

    ‘Na Vertical’ é o meu filme mais ‘queer’, diz diretor Alain Guiraudie

    Estreia esta semana no Brasil “Na Vertical”, o mais recente filme de Alain Guiraudie. Visto como um dos cineastas franceses mais alternativos do panorama atual, ele traz mais uma vez às telas uma outra imagem da França, longe de Paris e seus clichês, abordando temas raramente mostrados.

    Depois do sucesso de “Um estranho no lago”, premiado em Cannes e selecionado em vários festivais pelo mundo, o diretor rompe novas fronteiras. Se no filme anterior ele deu o que falar ao mostrar – com cenas de nudez e sexo explícito – os flertes homossexuais em uma praia naturista, desta vez o cineasta conta a história de um jovem fascinado por lobos, que tenta escrever um roteiro, mas que acaba vagando pelo interior da França com um bebê nos braços.

    Por mais “bizarro” que pareça, o tom é típico das obras de Guiraudie, conhecido por sua originalidade. “Na Vertical” aborda, por exemplo, temas como a eutanásia e outros e “medos” ocidentais, além de explorar questões como a teoria do gênero e a gerontofilia. “Eu sabia que depois do prêmio em Cannes seria muito mais fácil levantar dinheiro para a produção seguinte, então senti que era o momento de ousar, tentar algo diferente”, comenta o diretor, com seu sotaque típico do sudoeste francês, durante passagem por Paris. Em entrevista exclusiva à “RFI”, o cineasta, que tem entre suas inspirações nomes como o brasileiro Glauber Rocha, fala sobre sua maneira de fazer um cinema com pitadas de estranheza, entre naturalismo e onirismo.

    Como você definiria “Na Vertical”?
    Fiz esse filme como algo entre sonho e realidade, entre aventura e cotidiano, entre comédia e tragédia. Podemos falar de um cinema de gênero, bastante onírico.

    Porém, mesmo se é um cinema do sonho, “Na Vertical” aborda uma realidade contemporânea e fala de um mundo que está desaparecendo. Como esses velhinhos sentados na beira da estrada, vendo os carros passar, que eu mostro no filme. Mesmo se me inspirei na minha infância, tem muita coisa que vem de gente como David Lynch e George Romero. Tem uma cena, na qual Léo é atacado por mendigos, que representa um pesadelo ocidental. Mas também tinha na cabeça “A Noite dos mortos-vivos”.

    Há sempre essa vontade transpor preocupações contemporâneas em seu universo?
    Essa é uma preocupação constante. Sempre tento fazer ficção com coisas do cotidiano. Temas como a teoria de gênero, o casamento gay, a paternidade para homossexuais ou ainda a eutanásia são questões que planam neste filme. É muito difícil fazer um cinema político e social que aborde essas questões as inserindo em um projeto estético. Então a solução que eu encontrei, por enquanto, foi misturar o sonho. Quando eu faço um filme, sempre tento propor uma visão singular do mundo, mostrando os problemas da sociedade de um outro ponto de vista.

    Como quando você mostra uma outra França, filmada sempre fora de Paris e de preferência no mundo rural?
    As pessoas sempre me falam sobre isso, pois há poucos cineastas franceses que não filmam em Paris. Sempre me perguntam se o que eu mostro na tela é verdade ou mentira, se ainda há pessoas que vivem assim na França. E eu gosto de alimentar essa ambiguidade. É como a história do lobo em “Na Vertical”. É um elemento emblemático, pois trata-se ao mesmo tempo de um problema real no país, que dificulta a vida dos agricultores, e de um animal lendário, quase mitológico. Eu filmo esse mundo pois cresci no interior e em cidades pequenas. Mas é também uma posição política, que consiste em defender a vida fora das grandes metrópoles. Existe uma vida além das grandes cidades.

    Seu elenco também sai dos padrões clássicos de beleza, de idade ou de tipo físico.
    Eu gosto de pessoas que têm um físico mais marcado pela vida. Busco a beleza onde não temos o hábito de procurá-la. Mas há também a dimensão política, pois desde os anos 1980, as revistas, a televisão e o cinema nos dão a impressão que os pobres e os agricultores não têm direito a uma sexualidade, a uma homossexualidade e nem mesmo a uma sensualidade. Eles são completamente excluídos. Além disso, há uma espécie de estandardização na nossa sociedade, que procura mostrar apenas tipos físicos asseptizados. Antes era possível ser uma grande estrela em Hollywood sem entrar em padrões clássicos de beleza. Como Humphrey Bogart ou, aqui na França, Fernandel, Belmondo e Depardieu. Mas no mundo moderno parece que estamos o tempo todo procurando modelos de revistas de moda. Isso é muito penoso para mim, então eu tento ir contra o star system.

    Além disso, você aborda diferentes formas de sexualidade no filme.
    Mesmo se “Um estranho no lago” tinha uma dimensão homoerótica onipresente, vejo “Na Vertical” como o meu filme mais queer. Digo isso porque ele aborda algumas sexualidades que podem ser vistas como depravadas. O personagem principal transa com homens e tem um filho com uma mulher. Mas isso faz dele um homossexual ou um heterossexual? O filme questiona sobre outros tipos de sexualidade e também outros tipos de famílias.

    O mundo assiste a uma onda de conservadorismo, seja nos Estados Unidos, na Turquia ou na América Latina. Na França, alguns candidatos à eleição presidencial dão a impressão que até mesmo os direitos conquistados podem ser perdidos. Ao mostrar outras formas de família, você espera que seus filmes chamem a atenção para essas questões?
    Eu sempre acreditei no rumo da história. Na minha cabeça, os direitos conquistados eram definitivos. Mas agora, até os valores tradicionalmente de esquerda começam a se aproximar da direita. A gente dizia que a abolição da pena de morte nunca seria contestada, mas vivemos um momento em que tudo pode ser questionado e podemos viver um retrocesso, mesmo se esse retrocesso pode ser visto como um avanço para alguns. Os conservadores têm o dom de apresentar suas ideologias como algo revolucionário.

    E qual o papel do cinema nesse contexto?
    Abrir os horizontes. Mostrar um mundo diferente, com outras possibilidades. Mesmo se não são meus preferidos, a ficção de esquerda e o cinema social contribuem para que avancemos. Um filme como o brasileiro “Aquarius” tem esse papel. Eu não subestimo a importância desse cinema. A imagem de Kléber Mendonça subindo as escadarias do festival de Cannes com sua equipe no ano passado foi um momento muito forte. Até então, pouca gente no exterior sabia o que estava acontecendo no Brasil. Até aquele protesto, muita gente pensava realmente que Dilma havia sido corrompida.

    Você acompanha o cinema brasileiro?
    Conheço pouco o Brasil, mas lembro que quando estive lá pela última vez vivi uma cena engraçada. Eu disse durante uma conferência que estava muito contente por visitar o país de Glauber Rocha, que foi muito importante na minha carreira. Para minha surpresa, a viúva dele estava na sala e eu pude encontrá-la! Mas vi pouca coisa recente do cinema brasileiro. Na região, tenho acompanhado mais o trabalho de gente como os argentinos Lucrecia Martel e Lisandro Alonso. Já aqui na Europa, tenho muita afinidade com o português João Pedro Rodrigues. Sem esquecer os coreanos. Estou numa fase em que vejo muitos bons filmes coreanos.

    Você concorda quando te definem como um cineasta atípico?
    Eu acho que ser atípico deveria ser a norma no cinema. Cada um deve buscar seu caminho, sua visão do mundo e mostrar sua singularidade. Deveria ser um pleonasmo. Mas se as pessoas falam de atípico em oposição a acadêmico, então sim, me reconheço nessa definição. Se for para fazer como outros já fizeram, não me interessa.

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  • 22 jun 28 jun 2017

    DIVINAS DIVAS [ PRIMEIRA SEMANA ]

    Divinas Divas [ Festival do Rio 2016 ]

    Direção –  Leandra Leal
    Brasil, 2016, 1h50m
    Com Jane di Castro, Rogéria, Divina Valéria

    → 22 a 28 de junho (exceto 22, 25, 26 e 27 de junho)
    Horário: 20h45

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação 12 anos

    Sinopse

    Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujika de Holliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros. O documentário acompanha o reencontro das artistas para a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e memórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época.

    Sobre o filme – Lígia Mesquita para Folha de SP

    Leandra Leal lança documentário ‘Divinas Divas’ com trio na Parada Gay

    Sentada em uma cadeira em sua casa, no Rio, de peruca curtinha de cor chocolate, blusa e brincos de estampa de oncinha e longas unhas postiças vermelhas, Fujika de Halliday pergunta, com um riso tímido: “Eu sou diva, será?”. Diva, diz a atriz, é palavra e coisa muito séria. “Diva é diva, né? São essas mulheres maravilhosas, como a Maria Callas.”

    Para a diretora Leandra Leal, Fujika é uma diva, sim, assim como Brigitte de Búzios, Camille K., Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Jane Di Castro, Marquesa e Rogéria, artistas travestis pioneiras no Brasil, que são retratadas no documentário “Divinas Divas”, com estreia nesta quinta-feira (22).

    “Elas são divas para mim. São pessoas que colocam a arte acima de tudo, que têm dignidade e dedicação à sua arte. Diva, pra mim, é ter isso acima de tudo”, diz Leandra, 34, à Folha, por telefone.

    O longa, primeira incursão na direção da conhecida atriz de televisão e cinema, ganhou prêmios do público nos festivais do Rio e no americano SXSW. E terá, neste domingo (18), um trio elétrico na Parada Gay, em São Paulo.

    Apesar de dialogar bastante com a comunidade LGBT, “Divinas Divas” não tem pretensão de tratar a questão de identidade de gênero no Brasil. Está mais para um filme de amor à arte feito por uma artista para suas colegas.

    “Fiz um filme sobre oito artistas que admiro, não fiz um documentário sobre travestis, sobre trans. Claro que, por elas serem pioneiras, acabam contando muito da história do travestismo no Brasil, mas não é essa a intenção”, diz.

    A diretora, contudo, espera que o longa ajude a diminuir preconceitos no país. “Um dos maiores elogios que ouvi após uma sessão foi: ‘Nunca mais vou olhar um travesti como eu olhava’.”

    HISTÓRIAS CRUZADAS
    No início do documentário, a diretora explica, por meio de uma narração em off, de onde vem sua relação com essas artistas que nasceram homens, mas decidiram se vestir (e/ou viver) como mulheres, no palco ou fora dele.
    Foi nos bastidores do teatro Rival, no Rio, que pertenceu ao avô de Leandra, Américo Leal, que muitas dessas performers se apresentaram a partir dos anos 1960.

    Em uma de suas falas, Leandra conta as memórias das festas e espetáculos do Rival e das lembranças de seu pai e seu padrinho, que eram gays. A atriz conta que, após três anos montando o filme, decidiu se colocar também na obra. “Assim como elas estavam expostas, achei que eu tinha que me expor.”

    Em 2004, quando o Rival completou 70 anos, a mãe de Leandra, a também atriz Angela Leal, convidou Jane Di Castro para montar o espetáculo “Divinas Divas”.

    A partir dali, Leandra passou a conviver com as personagens de seu filme.

    Anos depois, ela, que se imaginava estreando na direção com uma ficção, decidiu que faria um documentário sobre aquelas mulheres durante a montagem, em 2014, do novo “Divinas…” que comemoraria os 50 anos de carreira das artistas.
    Para conseguir filmar, Leandra fez um crowdfunding em 2013 e arrecadou pouco mais de R$ 150 mil.

    A atriz, na época, não conseguiu patrocínios. “Tive recusas por causa dos temas, falar de travestis e de envelhecimento, dois tabus que existem no Brasil.”

    CHORO E RISO

    O filme mostra os ensaios do show “Divinas Divas”, assim como o espetáculo em si, além de trazer ótimos depoimentos das artistas. Fotos, jornais e filmes servem para costurar e contextualizar as histórias contadas, muitas da época da ditadura.
    Algumas passagens contadas são muito tristes, como a das internações em sanatórios de Marquesa (que morreu em 2015, aos 71 anos) e Brigitte, para se “curarem”.

    Há também momentos de riso e deboche –por exemplo, de Rogéria, 74, ao se definir como “o travesti da família brasileira”.
    Para Jane Di Castro, 69, essa mistura de emoções e uma certa nostalgia são coisas ótimas do filme. “Acho importante falar das nossas dificuldades. A gente era presa se saísse de mulher na rua. Essas trans novas reclamam muito da liberdade, imagina na nossa época”, fala.

    Rogéria acha que “Divinas…” estreia num momento oportuno. “Houve um retrocesso terrível na democracia. As pessoas não respeitam professores, as mulheres continuam apanhando. As bichas reclamam, mas as mulheres apanham muito.”

    Para ela, o longa pode ajudar a mudar a visão de algumas pessoas. “Os gays são seres humanos maravilhosos. Os grandes nomes da arte, Oscar Wilde, Tennessee Williams, tudo gay. Mas, para ser gay, tem que ser inteligente. A bicha que não estuda vai ficar a ver navios.”

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  • 27 jun 2017

    [ Cinelixo no 104 ] O IMPÉRIO DO DESEJO

    [Cinelixo no 104 - Sessão comentada] O império do desejo

    Direção – Carlos Reichenbach
    Brasil, 1981, 106 minutos

    → 27 de junho, terça-feira
    Horário: 
    20h45 
    ENTRADA GRATUITA, com distribuição de ingressos 30 minutos antes da sessão.
    Classificação indicativa – 16 anos

    Sandra, viúva de um milionário, vai ao litoral recuperar sua casa de praia tomada por grileiros. Na estrada dá carona a um casal de hippies. Auxiliada por Carvalho, um advogado picareta, Sandra recupera a propriedade e convida o casal de caronas a assumir a função de caseiros. A partir daí o casal vai gradativamente se envolvendo com uma galeria de personagens insólitos, incluindo a própria viúva, seu namorado e o advogado, que se apaixona perdidamente pelos dois.

    Logo após a sessão, o longa será comentado por Flávio C. Von Sperling, e haverá um debate para uma troca de impressões e ideias sobre o filme.

    Sobre o filme

    A narrativa de Império do Desejo (inicialmente intitulado “Anarquia Sensual”) trabalha com uma certa unidade de espaço constante nos filmes de Reichenbach, é posssivelmente aquilo que ele chamou de “busca de uma geografia própria” na coluna que publicou recentemente no portal Cineclick – parte-se de uma situação básica em que personagens se isolam em uma casa e a relação que se estabelece provoca entre eles um ritual de transformação, de amadurecimento. Dois anos mais tarde, Extremos do Prazer chegaria ao limite (extremo?) dessa unidade, de certa forma retomada em Dois Córregos. No caso de Império…, o espaço central é uma casa na praia, para a qual vai a recém-viúva Sandra, interpretada por Meiry Vieira, no início do filme, depois de contar para nós e para seu amante boçal que só descobriu a existência do lugar depois da morte de seu marido – graças a um rábula da região, o doutor Carvalho, interpretado por Benjamin Cattan, que a procurou para expulsar os grileiros que tomavam a propriedade. No caminho, conhece um casal de “hippies extemporâneos”, Lucinha e Nicolau (ou apenas Nick), interpretados por Márcia Fraga e Roberto Miranda, ela ainda menor, ele já na faixa dos 35 anos. Sandra dá uma carona aos dois e, mais tarde, contrata-os como caseiros pelo período de uma semana, para desespero do dr. Carvalho. Na casa de dois cômodos não há mais que uma cama, mesa, panelas, uma vitrola e dezenas de discos com a música americana dos anos trinta e quarenta que tempera um certo tom satírico no filme.

    Sandra parte e lá deixa o casal, depois de descobrir o apetite físico dos dois e descobrir também, um pouco assustada, que na região mora um louco, um “anjo vingador”, “um ex-tudo que liquida a porretadas: proselitistas renitentes, turistas predatórios e boçais de toda a espécie”, segundo o diretor, no mesmo artigo já citado. Este personagem, o profeta Di Branco – interpretado pelo poeta Orlando Parolini, amigo do realizador e inspirador do personagem –, é chave central para se entender as idéias e o espírito de Império do Desejo, uma vez que ele empresta uma fúria à narrativa que traz um tremendo estranhamento a uma comédia erótica que versa sobre liberdade e amor.

    O filme inteiro parece se basear nos conflitos e conciliações desses dois conceitos, amor e liberdade, sugerindo uma alternativa à autoritária união de ordem e progresso e repensando e pondo em crise essa alternativa, sem pudor e com pouco tato. A história norteia isso através de três conflitos centrais: um, a liberação dos travadões, primeiro Sandra e em seguida o dr. Carvalho; segundo, o amadurecimento da relação do casal ‘hippie’, passando por experiências sexuais diversas e pelo conflito do ciúme; e, terceiro, a eliminação impaciente e despudorada dos ‘boçais de toda a espécie’ pelo anjo vingador, que não ataca nenhuma vez personagens que estejam se transformando, demonstrando clara preferência por aqueles que parecem ter idéias congeladas na cabeça – quando as têm.

    A partir da saída de Sandra, estes ‘boçais’ vão se apresentando – com exceção do namorado dela, Odilon, que já aparecera no prólogo –, às vezes invadindo o cotidiano do casal, como no caso das duas garotas reprimidas interpretadas por Aldine Müller e Martha Anderson ou dos dois bandidos que surgem fazendo referência ao clássico Bang-bang, às vezes fugindo completamente à trama central, como acontece com o casal porcalhão que toma sol demais e suja tudo à sua volta – lembrando A Mulher de Todos – ou com a chinesa que invade a praia para entrevistar Di Branco para um jornal subversivo e transa loucamente com ele, citando toda sorte de chavões comunistas (“O movimento deve vir das bases, de baixo para cima”, diz ela enquanto transa com o poeta), até ir parar no caldeirão em que ele cozinha algumas das suas vítimas.

    Tentado pela beleza de Lucinha, o dr. Carvalho leva duas prostitutas para entreter Nick enquanto tenta seduzir ela, que se entrega por gratidão e sem tesão – levando Nick a se perguntar, enciumado, “onde acaba o libertário e começa o promíscuo”. Afinal de contas, o amor livre do casal hippie não pode ser a versão jovem da suruba burguesa, como já comentou uma amiga comigo. O drama de Nick é descobrir onde se realiza na prática essa diferença.

    No dia seguinte, Carvalho se dá conta do quão errada foi sua atitude e pede que considerem que não era esta sua intenção. Perdoado pela menina, ele ganha, atônito, um beijo na boca de Nick, para diversão das duas prostitutas e extremo desagrado seu – “Eu sou pai de família, porra, ninguém pode fazer isso comigo!…”.

    Sandra volta à casa junto com Odilon, seu desagradável namorado, levando o questionamento do casal ao limite do insuportável, uma vez que Lucinha cai de amores pelo galãzinho arrogante, diante do ciúme impassível de Nick, que prefere que os dois “transem logo, para resolver a questão”. Quando Sandra o acusa de estar sendo comodista, ele corrige: comodista não, racional. E desde quando é possível racionalizar sentimentos, cara? Não, não dá, mas é preciso tentar, é o caminho mais maduro. E Nick encara essa, deixando sua mulher transar com Odilon – o que termina sendo uma experiência tremendamente desagradável para ela. Em seguida, num passeio pela praia, o galã boçal cai na besteira de insultar Di Branco e pronto: leva uma paulada na testa e é mais um que desaparece da história.

    Depois de romper seus pudores num clímax antológico com o casal, Sandra parte – “Vida a três é uma barra muito pesada, não tenho estrutura para isso”, diz ela, numa postura semelhante à adotada pela protagonista no filme já citado Extremos do Prazer – e é interceptada pelo chefe dos bandidos. Que, anteriormente, num curto diálogo, possivelmente revelam ter uma outra profissão – é quando um diz ao outro (com a voz do mesmo dublador do Fred Flintstone): “Seu idiota, não se trata mal quem cuida de plantas, eu fui lavrador antes de ser policial”.

    Interceptada, Sandra tem o mesmo destino da protagonista de A Ilha dos Prazeres Proibidos. O final violento – causado por tramas subliminares e absolutamente ocultas – tem algo a ver com o Brasil, virada dos anos setenta para os oitenta? É, né?… O fato é que seria necessário um sem-número de Di Brancos para exterminar a boçalidade predominante e ditatorial.

    Escapa o casal da violência por pura sorte, uma vez que Carvalho os tira de lá, depois de cumprir todo seu ciclo de desrepressão e se assumir bissexual e livre. Empolgado, resolve se libertar de roupas e empecilhos e mergulhar na natureza – no entanto, quem entra n’água tem que saber nadar. Os livres ficam sozinhos para se amar e sobrevivem – para eles a vida é bela – enquanto os quase-destravados morrem. Cada um descobre seus limites aprendendo a não ter medo de viver – mas talvez nem todos estejam preparados para isso.

    E Di Branco não vai conseguir acabar com todos os boçais, mas não é por isso que ele não vai tentar.

    Curioso em saber o que dizia Di Branco quando gritava (meu conhecimento de latim clássico não é grande coisa), entrei em contato com o realizador para descobrir o significado das falas de Parolini. Esclareceu-me Don Carlone: “As falas de Orlando Parolini são extratos de “pessoinhas” como Fernando Pessoa, Henry Miller, Verlaine, Oswald Spengler e outros loucos santos. (…) Na parede do barraco de Di Branco, uma citação de “A Decadência do Ocidente”, de Oswald Spengler”.

    Mesmo com suas porretadas e sua fúria incendiária e assassina, Di Branco parece poder ser definido como gentil, amoroso e ao mesmo tempo um fugitivo cansado de brigar com o mundo – note-se que é a mesma definição adequada a Nick. Na verdade, os personagens são tremendamente aparentados, como descobrimos quando a chinesa revela a Carvalho e a nós que Nick já foi alguém “muito importante”, como também fora Di Branco – não por acaso, Nick é o primeiro a reconhecer Di Branco no filme. Mas, ao contrário do ‘hippie extemporâneo’, Di Branco é um guerreiro teimoso e impaciente – um anjo que veio para nos vingar. Ao contrário do tranqüilo Nick, Di Branco não quer nem saber: mete o porrete!

    Império do Desejo é um desses filmes tão grandes que poderiam justificar toda uma época, todos os desvarios, erros e desacertos – se por acaso precisássemos disso (não precisamos). É desses filmes que terminamos de ver pensando “Que bom que alguém filmou isso!”, é uma irônica, irada e apaixonada redenção do tesão. É um filme tesudo? É sim, muito, mas é mais ainda um filme raivoso e ao mesmo tempo amoroso, livre e libertário.

    Daniel Caetano

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