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Belo Horizonte | MG | 30.160-000
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Café 104, Cine 104 e espaços multiuso: consulte a programação

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Programação

  • 27 abr 03 mai 2017

    JOAQUIM [ PRIMEIRA SEMANA ]

    Joaquim [ Seleção oficial Berlim 2017 ]

    Direção –  Marcelo Gomes
    Brasil, 2017, 1h37m
    Com Júlio Machado, Nuno Lopes, Rômulo Braga

    → 27 de abril a 3 de maio (exceto domingo, 30, e segunda-feira, 1º)
    Horário: 17h

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação indicativa – 14 anos

    Sinopse

    A história dos acontecimentos e fatos que levaram Joaquim José da Silva Xavier, um dentista comum de Minas Gerais, a se tornar mais conhecido pela alcunha de Tiradentes, transformando-se em um importante herói nacional e mártir que veio a liderar o levante popular conhecido como “Inconfidência Mineira”.

    Sobre o filme – Neusa Barbosa, do Cineweb

    Uma sensação de estranheza pode percorrer o espectador brasileiro de “Joaquim”, o novo filme do cineasta pernambucano Marcelo Gomes – que representou o Brasil na competição oficial do mais recente Festival de Berlim.

    Como não se pretende uma cinebiografia do famoso líder da Inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o filme dá-se ao luxo de ignorar preâmbulos informativos ou mesmo vincular estritamente o personagem aos fatos mais conhecidos de sua vida – embora fique clara esta ligação a partir da narração em off com que o fantasma do protagonista abre a história.

    “Joaquim” se coloca declaradamente como uma crônica de época, procurando no Brasil de traços incertos do século 18 as pistas para um desenvolvimento desequilibrado e as profundas desigualdades sociais que, desde então, assolam a nação.

    Roteirizado também por Gomes, o filme explora as lacunas e lendas em torno da vida do protagonista – sobre quem, afinal, pouco se sabe com exatidão fora dos autos da Inconfidência. Permite-se, assim, a liberdade de imaginar quem ele pode ter sido, a partir da visão de um Brasil povoado majoritariamente por mestiços, escravos e índios, explorado por um ávido regime colonialista, mas já dando sinais de que uma sociedade ensaiava existir por aqui.

    Assim, Joaquim (Julio Machado) é apresentado como o devotado alferes a serviço da Coroa portuguesa, encarregado de caçar contrabandistas de ouro pelos caminhos inóspitos do sertão mineiro. Sonha com uma promoção a tenente, que lhe permitiria realizar o sonho de comprar a escrava Preta (Isabél Zuaa), por quem é apaixonado.

    Nada sugere que este homem simples, mas com alguma instrução e prática odontológica – esta, revelando mais uma face da precariedade na vida da colônia – vá se transformar num rebelde. Por seus sonhos, ele parece mais um integrante de uma incipiente classe média que ainda nem propriamente existe. No país do século 18, a maioria da população é desprovida de direitos e até de planos de emancipação. Só a elite administrativa portuguesa e uma pequena quantidade de proprietários locais pode aspirar a algum conforto e satisfação.

    Empenhado num naturalismo profundo, o filme não poupa detalhes desta vida nos rudes trópicos, em que a rotina do trabalho do próprio Joaquim é levada no lombo de burros, no meio da mata fechada, do calor, dos mosquitos e da falta de condições de higiene. Tudo isso é traduzido com mais contundência no segmento em que o alferes é encarregado pelos superiores de buscar ouro no chamado Sertão Proibido, local dos mais inóspitos e que foi filmado nos arredores de Diamantina (MG).

    “Joaquim” empenha-se no esforço de despertar os instintos e a imaginação do espectador ao propor-lhe situações mostrando a interação do protagonista com as camadas oprimidas e sua aproximação da elite ilustrada que, finalmente, deve ter-lhe dado os meios para a conscientização que alterou drasticamente sua trajetória, assim como a informação sobre os quilombos que semeavam a revolta nos rincões do país, ilustrada por uma outra transformação, a da escrava Preta.

    Por esse processo, o filme constitui uma fantasia histórica que tem os olhos voltados para uma reflexão sobre o presente, projetando em seus sinais os sintomas do mal-estar contemporâneo do país. E assim, desprovida de muletas didáticas, se afirma como uma obra instigante e eficaz.

    Detalhes

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  • 27 abr 03 mai 2017

    MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER [ ESTREIA NO CINE 104 ]

    Mais do eu possa me reconhecer [ Prêmio da crítica 18ª Mostra de cinema de Tiradentes - Troféu Barroco ]

    Direção –  Allan Ribeiro
    Brasil, 2016, 1h12m
    Com Darel Valença Lins

    → 27 de abril a 3 de maio (exceto domingo, 30, e segunda-feira, 1º)
    Horário: 19h

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação indicativa – 12 anos

    Sinopse

    Uma solidão de oitocentos metros quadrados, em que o espelho já não lhe basta. Um artista plástico descobre na videoarte uma companheira inseparável.

    Sobre o filme – Adriano Garrett

    Em um nicho de filmes no qual a busca pela autoria passa muitas vezes por opções estéticas supostamente sofisticadas, com falas solenes e tempos mortos a rodo, o alcance da potência cinematográfica através de recursos que parecem simples (como encontros pessoais e histórias familiares), mas que ganham múltiplos significados na tela, é um respiro. Na nova geração de cineastas brasileiros, os nomes de André Novais Oliveira (Ela Volta na Quinta) e Allan Ribeiro podem ser enquadrados nesse grupo. No documentário Mais Do Que Eu Possa Me Reconhecer, apresentado na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Allan constrói um trabalho com ricas possibilidades de apreensão partindo apenas da sua relação de amizade com o artista plástico e videoartista Darel Valença Lins.

    A sequência logo no início na qual os dois artistas se filmam para, logo em seguida, Darel apagar as imagens que havia acabado de gravar, já estabelece um embate entre duas visões artísticas que irá permear todo o filme. O entrevistado faz filmes caseiros experimentais nos quais não há falas; Allan, por sua vez, usa como um dos eixos de construção de seu filme as conversas com Darel e utiliza vários trabalhos do artista na construção do longa-metragem. Esta estratégia vai criando uma espécie de comunhão entre os dois, à medida que o limite de distinção entre as características de um e de outro vai ficando mais tênue.

    O isolamento e a solidão de Darel Valença Lins são duas características mostradas de diferentes formas pelo filme. As imagens com objetos “voadores” de filmes do artista criam um ambiente quase fantasmagórico que dialoga com a imensidão da casa – 800 metros quadrados, como um letreiro frisa – em contraposição à pequenez daquele único morador. A sensação transmitida por objetos antigos (como um telefone) ou por uma marca de tiro na parede é que o passado e o presente pouco se distinguem naquele ambiente.

    A ambientação do filme se dá quase sempre naquela casa fechada e o contato com o mundo exterior é quase sempre negado. Na única vez em que encontra outra pessoa que não seja da equipe de filmagem, Darel recebe uma encomenda de um entregador dos Correios cujo rosto não conseguimos enxergar e logo a descarta na mesa. O carro estacionado na garagem, a engraçada conversa telefônica sobre a multa que ele teria tomado, a fala sobre a falta de vontade de sair de casa e o plano aberto em que ele está na sacada da casa são elementos que solidificam essa noção de isolamento.

    Uma das escolhas interessantes da direção é a de dividir o filme em cenas, uma noção vinda de obras de ficção. Darel chega a falar que não é Paul Newman para ficar posando para um filme, mas é evidente que, a partir do momento em que entra em contato com outra pessoa e com a câmera, estará presente ali uma noção de representação, algo que fica visível já na parte em que apaga o vídeo recém-realizado ou nas suas falas sobre como todos os dias são únicos.

    Mais do que um estudo exclusivo sobre Darel Valença Lins, o filme é sobre o encontro entre as solidões dele e do diretor Allan Ribeiro. Como diz o artista plástico na fala mais marcante do filme, a mera troca de olhares entre duas pessoas tem o mesmo valor do que um autorretrato sofisticado. Colocando em outras palavras, não interessa ao filme apenas expor as características individuais de Darel e tentar defini-lo de maneira unilateral. O exercício do diretor é o de se colocar como parte construtora do projeto, apostando na força dessa troca de emoções sem nunca querer encontrar interpretações fechadas para definir o entrevistado.

    Podemos ver em tela a força desse encontro, dessa troca de olhares, e a comunhão alcançada é tão grande que o isolamento construído ao longo do filme pede por uma expansão. Na obra, isso acontece através de uma rápida sequência de saída para o mundo; fora dela, ela alcança sua potência pelo olhar do espectador.

    Sobre os artistas

    Darel Valença Lins – É importante gravurista, pintor, desenhista, ilustrador brasileiro. Nascido em Pernambuco em 1924, Darel teve diversas exposições individuais em cidades pelo mundo como Roma, Rio de Janeiro, Recife, Milão, São Paulo, Bruxelas e Copenhague. Atualmente se dedica a videoarte.

    Allan Ribeiro – Formado em Cinema pela UFF, dirigiu dois longas: “Esse amor que nos consome” (2012), que estreou no Festival de Brasília e recebeu prêmios em 10 cidades brasileiras e “Mais do que eu possa me reconhecer” (2015), que estreou na Mostra de Cinema Tiradentes e recebeu o prêmio principal do júri. Em sua filmografia estão 11 curtas- metragens, com destaque para: “O brilho dos meus olhos” (2006); “Ensaio de Cinema” (2009); “A Dama do Peixoto” (2011) e “O Clube” (2014).

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  • 27 abr 03 mai 2017

    EU NÃO SOU SEU NEGRO [ TERCEIRA SEMANA ]

    Eu não sou seu negro [Indicado ao Oscar 2017 ]

    Direção –  Raoul Peck
    EUA, França, Bélgica e Suíça, 2016, 1h33m
    Com Samuel L. Jackson

    → 27 de abril a 3 de maio (exceto domingo, 30, e segunda-feira, 1º)
    Horário: 20h30

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação indicativa – 12 anos

    Sinopse

    O escritor James Baldwin escreveu uma carta para o seu agente sobre o seu mais recente projeto: terminar o livro Remember This House, que relata a vida e morte de alguns dos amigos do escritor, como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Junior. Com sua morte, em 1987, o manuscrito inacabado foi confiado ao diretor Raoul Peck.

    Sobre o filme – Luiz Carlos Merten para O Estadão

    Raoul Peck pode não ser uma personalidade midiática, um autor pop como Quentin Tarantino ou Lars Von Trier, mas ele está marcando presença na Berlinale com dois filmes e uma intensa participação em debates e encontros. Sua grande preocupação tem sido evitar que se fale ao mesmo tempo sobre a ficção O Jovem Karl Marx e o documentário Eu Não Sou Seu Negro, indicado para o Oscar da categoria. Peck só concede entrevistas para falar separadamente de cada filme. Cabe ao interlocutor relacionar os dois. Por enquanto, só um está estreando no Brasil, nesta quinta, 16, e é o documentário.

    Ambos demoraram em torno de dez anos para se viabilizar. “No caso de Eu Não Sou Seu Negro, foi o período que demorei para adquirir os direitos de James Baldwin, mas, na verdade, eu já o vinha deglutindo há 30 anos. James foi fundamental numa fase da minha vida em que, como negro, me questionava sobre quem eu era e qual o meu papel no mundo. Ele viveu um tempo na Europa, na França, e isso lhe deu um distanciamento para olhar a sociedade dos EUA com todas as suas contradições. A radicalização dos anos 1960 meio que o deixou de lado, mas creio que hoje há um retorno a seus escritos. É impossível refletir sobre a identidade negra, na América, sem fazer referência a James Baldwin e seus ensaios.”

    De cara, no próprio filme, Peck conta que se inspirou num projeto inacabado de Baldwin, um livro sobre três lideranças que foram assassinadas na época do movimento por direitos civis. Dois deles são conhecidíssimos em todo o mundo, Malcolm X e Martin Luther King. O terceiro não é menos importante, Medgar Evers. “Acho que o mais difícil nesse filme foi encontrar o link entre cada um deles e o que ocorria na América e relacionar com o próprio James, que vivia um momento particular de sua vida. Porque o filme é, acima de tudo, sobre a construção da imagem do negro.”

    O diretor fez uma pesquisa acurada. Obras de ficção, de propaganda, cinejornais. É interessante ver como já antes da integração a publicidade retratava um segmento da classe média negra em condições de consumir. “Associamos tanto consumismo com alienação que deixamos de reconhecer que a integração, no mundo capitalista, passou por aí. Era impossível continuar não reconhecendo uma parcela tão significativa de consumidores.”

    As discussões mobilizam personalidades públicas como Marlon Brando, o diretor Joseph L. Mankiewicz, Sidney Poitier e Harry Belafonte. “Mas eu não queria ficar só no passado. Era importante trazer essa discussão para o presente. Terminar com esses rostos é tão necessário para mim como ter Samuel L. Jackson não como narrador, mas como a voz que interpreta aquelas palavras e lhes dá sentido. E Sam tem a credibilidade das ruas, é outra coisa que queria alcançar.”

    Sobre seu jovem Karl Marx, Peck disse, na apresentação do filme, que viveu na Alemanha numa época em que a leitura de Marx era obrigatória. “Formávamos grupos para estudar suas vida e obra, para buscar o significado nas entrelinhas.” Seu filme sobre o líder revolucionário congolês Patrice Lumumba, assassinado em 1961, é considerado um marco, mas o belo e apaixonado Karl Marx do autor está agora sob suspeita. Isso tem mais a ver com o estado do mundo do que com a obra de Peck. Ele flagra, ficcionalmente, o momento em que Marx e Friedrich Engels, interpretados por August Diehl e Stefan Konarske, trabalham juntos na redação do Manifesto Comunista. Para o bem e para o mal, aquelas frases são imortais – “Um fantasma ronda a Europa (o ano é 1848). É o fantasma do comunismo…” Certamente, não é esse o fantasma que ronda a Europa (e o mundo) atualmente, daí a provocação do filme.

    A maioria está achando O Jovem Karl Marx muito romântico. Peck está sendo cobrado, não pela visão crítica que ele tem de seus personagens, mas pelo que escapa ao conceito do projeto – a condenação dos anos de comunismo que vieram depois. Toda a ‘right wing’ (direita) está lhe cobrando isso.

    Como os rostos no final de Eu Não Sou Seu Negro, O Jovem Karl Marx termina com uma colagem de faces que representam a força e beleza da classe operária, ao som de Like a Rolling Stone, de Bob Dylan.

    Detalhes

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  • 27 abr 03 mai 2017

    JOAQUIM [ PRIMEIRA SEMANA ]

    Joaquim [ Seleção oficial Berlim 2017 ]

    Direção –  Marcelo Gomes
    Brasil, 2017, 1h37m
    Com Júlio Machado, Nuno Lopes, Rômulo Braga

    → 27 de abril a 3 de maio (exceto domingo, 30, e segunda-feira, 1º)
    Horário: 17h

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação indicativa – 14 anos

    Sinopse

    A história dos acontecimentos e fatos que levaram Joaquim José da Silva Xavier, um dentista comum de Minas Gerais, a se tornar mais conhecido pela alcunha de Tiradentes, transformando-se em um importante herói nacional e mártir que veio a liderar o levante popular conhecido como “Inconfidência Mineira”.

    Sobre o filme – Neusa Barbosa, do Cineweb

    Uma sensação de estranheza pode percorrer o espectador brasileiro de “Joaquim”, o novo filme do cineasta pernambucano Marcelo Gomes – que representou o Brasil na competição oficial do mais recente Festival de Berlim.

    Como não se pretende uma cinebiografia do famoso líder da Inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o filme dá-se ao luxo de ignorar preâmbulos informativos ou mesmo vincular estritamente o personagem aos fatos mais conhecidos de sua vida – embora fique clara esta ligação a partir da narração em off com que o fantasma do protagonista abre a história.

    “Joaquim” se coloca declaradamente como uma crônica de época, procurando no Brasil de traços incertos do século 18 as pistas para um desenvolvimento desequilibrado e as profundas desigualdades sociais que, desde então, assolam a nação.

    Roteirizado também por Gomes, o filme explora as lacunas e lendas em torno da vida do protagonista – sobre quem, afinal, pouco se sabe com exatidão fora dos autos da Inconfidência. Permite-se, assim, a liberdade de imaginar quem ele pode ter sido, a partir da visão de um Brasil povoado majoritariamente por mestiços, escravos e índios, explorado por um ávido regime colonialista, mas já dando sinais de que uma sociedade ensaiava existir por aqui.

    Assim, Joaquim (Julio Machado) é apresentado como o devotado alferes a serviço da Coroa portuguesa, encarregado de caçar contrabandistas de ouro pelos caminhos inóspitos do sertão mineiro. Sonha com uma promoção a tenente, que lhe permitiria realizar o sonho de comprar a escrava Preta (Isabél Zuaa), por quem é apaixonado.

    Nada sugere que este homem simples, mas com alguma instrução e prática odontológica – esta, revelando mais uma face da precariedade na vida da colônia – vá se transformar num rebelde. Por seus sonhos, ele parece mais um integrante de uma incipiente classe média que ainda nem propriamente existe. No país do século 18, a maioria da população é desprovida de direitos e até de planos de emancipação. Só a elite administrativa portuguesa e uma pequena quantidade de proprietários locais pode aspirar a algum conforto e satisfação.

    Empenhado num naturalismo profundo, o filme não poupa detalhes desta vida nos rudes trópicos, em que a rotina do trabalho do próprio Joaquim é levada no lombo de burros, no meio da mata fechada, do calor, dos mosquitos e da falta de condições de higiene. Tudo isso é traduzido com mais contundência no segmento em que o alferes é encarregado pelos superiores de buscar ouro no chamado Sertão Proibido, local dos mais inóspitos e que foi filmado nos arredores de Diamantina (MG).

    “Joaquim” empenha-se no esforço de despertar os instintos e a imaginação do espectador ao propor-lhe situações mostrando a interação do protagonista com as camadas oprimidas e sua aproximação da elite ilustrada que, finalmente, deve ter-lhe dado os meios para a conscientização que alterou drasticamente sua trajetória, assim como a informação sobre os quilombos que semeavam a revolta nos rincões do país, ilustrada por uma outra transformação, a da escrava Preta.

    Por esse processo, o filme constitui uma fantasia histórica que tem os olhos voltados para uma reflexão sobre o presente, projetando em seus sinais os sintomas do mal-estar contemporâneo do país. E assim, desprovida de muletas didáticas, se afirma como uma obra instigante e eficaz.

    Detalhes

    Saiba mais
  • 27 abr 03 mai 2017

    MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER [ ESTREIA NO CINE 104 ]

    Mais do eu possa me reconhecer [ Prêmio da crítica 18ª Mostra de cinema de Tiradentes - Troféu Barroco ]

    Direção –  Allan Ribeiro
    Brasil, 2016, 1h12m
    Com Darel Valença Lins

    → 27 de abril a 3 de maio (exceto domingo, 30, e segunda-feira, 1º)
    Horário: 19h

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação indicativa – 12 anos

    Sinopse

    Uma solidão de oitocentos metros quadrados, em que o espelho já não lhe basta. Um artista plástico descobre na videoarte uma companheira inseparável.

    Sobre o filme – Adriano Garrett

    Em um nicho de filmes no qual a busca pela autoria passa muitas vezes por opções estéticas supostamente sofisticadas, com falas solenes e tempos mortos a rodo, o alcance da potência cinematográfica através de recursos que parecem simples (como encontros pessoais e histórias familiares), mas que ganham múltiplos significados na tela, é um respiro. Na nova geração de cineastas brasileiros, os nomes de André Novais Oliveira (Ela Volta na Quinta) e Allan Ribeiro podem ser enquadrados nesse grupo. No documentário Mais Do Que Eu Possa Me Reconhecer, apresentado na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Allan constrói um trabalho com ricas possibilidades de apreensão partindo apenas da sua relação de amizade com o artista plástico e videoartista Darel Valença Lins.

    A sequência logo no início na qual os dois artistas se filmam para, logo em seguida, Darel apagar as imagens que havia acabado de gravar, já estabelece um embate entre duas visões artísticas que irá permear todo o filme. O entrevistado faz filmes caseiros experimentais nos quais não há falas; Allan, por sua vez, usa como um dos eixos de construção de seu filme as conversas com Darel e utiliza vários trabalhos do artista na construção do longa-metragem. Esta estratégia vai criando uma espécie de comunhão entre os dois, à medida que o limite de distinção entre as características de um e de outro vai ficando mais tênue.

    O isolamento e a solidão de Darel Valença Lins são duas características mostradas de diferentes formas pelo filme. As imagens com objetos “voadores” de filmes do artista criam um ambiente quase fantasmagórico que dialoga com a imensidão da casa – 800 metros quadrados, como um letreiro frisa – em contraposição à pequenez daquele único morador. A sensação transmitida por objetos antigos (como um telefone) ou por uma marca de tiro na parede é que o passado e o presente pouco se distinguem naquele ambiente.

    A ambientação do filme se dá quase sempre naquela casa fechada e o contato com o mundo exterior é quase sempre negado. Na única vez em que encontra outra pessoa que não seja da equipe de filmagem, Darel recebe uma encomenda de um entregador dos Correios cujo rosto não conseguimos enxergar e logo a descarta na mesa. O carro estacionado na garagem, a engraçada conversa telefônica sobre a multa que ele teria tomado, a fala sobre a falta de vontade de sair de casa e o plano aberto em que ele está na sacada da casa são elementos que solidificam essa noção de isolamento.

    Uma das escolhas interessantes da direção é a de dividir o filme em cenas, uma noção vinda de obras de ficção. Darel chega a falar que não é Paul Newman para ficar posando para um filme, mas é evidente que, a partir do momento em que entra em contato com outra pessoa e com a câmera, estará presente ali uma noção de representação, algo que fica visível já na parte em que apaga o vídeo recém-realizado ou nas suas falas sobre como todos os dias são únicos.

    Mais do que um estudo exclusivo sobre Darel Valença Lins, o filme é sobre o encontro entre as solidões dele e do diretor Allan Ribeiro. Como diz o artista plástico na fala mais marcante do filme, a mera troca de olhares entre duas pessoas tem o mesmo valor do que um autorretrato sofisticado. Colocando em outras palavras, não interessa ao filme apenas expor as características individuais de Darel e tentar defini-lo de maneira unilateral. O exercício do diretor é o de se colocar como parte construtora do projeto, apostando na força dessa troca de emoções sem nunca querer encontrar interpretações fechadas para definir o entrevistado.

    Podemos ver em tela a força desse encontro, dessa troca de olhares, e a comunhão alcançada é tão grande que o isolamento construído ao longo do filme pede por uma expansão. Na obra, isso acontece através de uma rápida sequência de saída para o mundo; fora dela, ela alcança sua potência pelo olhar do espectador.

    Sobre os artistas

    Darel Valença Lins – É importante gravurista, pintor, desenhista, ilustrador brasileiro. Nascido em Pernambuco em 1924, Darel teve diversas exposições individuais em cidades pelo mundo como Roma, Rio de Janeiro, Recife, Milão, São Paulo, Bruxelas e Copenhague. Atualmente se dedica a videoarte.

    Allan Ribeiro – Formado em Cinema pela UFF, dirigiu dois longas: “Esse amor que nos consome” (2012), que estreou no Festival de Brasília e recebeu prêmios em 10 cidades brasileiras e “Mais do que eu possa me reconhecer” (2015), que estreou na Mostra de Cinema Tiradentes e recebeu o prêmio principal do júri. Em sua filmografia estão 11 curtas- metragens, com destaque para: “O brilho dos meus olhos” (2006); “Ensaio de Cinema” (2009); “A Dama do Peixoto” (2011) e “O Clube” (2014).

    Detalhes

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  • 27 abr 03 mai 2017

    EU NÃO SOU SEU NEGRO [ TERCEIRA SEMANA ]

    Eu não sou seu negro [Indicado ao Oscar 2017 ]

    Direção –  Raoul Peck
    EUA, França, Bélgica e Suíça, 2016, 1h33m
    Com Samuel L. Jackson

    → 27 de abril a 3 de maio (exceto domingo, 30, e segunda-feira, 1º)
    Horário: 20h30

    Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
    Classificação indicativa – 12 anos

    Sinopse

    O escritor James Baldwin escreveu uma carta para o seu agente sobre o seu mais recente projeto: terminar o livro Remember This House, que relata a vida e morte de alguns dos amigos do escritor, como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Junior. Com sua morte, em 1987, o manuscrito inacabado foi confiado ao diretor Raoul Peck.

    Sobre o filme – Luiz Carlos Merten para O Estadão

    Raoul Peck pode não ser uma personalidade midiática, um autor pop como Quentin Tarantino ou Lars Von Trier, mas ele está marcando presença na Berlinale com dois filmes e uma intensa participação em debates e encontros. Sua grande preocupação tem sido evitar que se fale ao mesmo tempo sobre a ficção O Jovem Karl Marx e o documentário Eu Não Sou Seu Negro, indicado para o Oscar da categoria. Peck só concede entrevistas para falar separadamente de cada filme. Cabe ao interlocutor relacionar os dois. Por enquanto, só um está estreando no Brasil, nesta quinta, 16, e é o documentário.

    Ambos demoraram em torno de dez anos para se viabilizar. “No caso de Eu Não Sou Seu Negro, foi o período que demorei para adquirir os direitos de James Baldwin, mas, na verdade, eu já o vinha deglutindo há 30 anos. James foi fundamental numa fase da minha vida em que, como negro, me questionava sobre quem eu era e qual o meu papel no mundo. Ele viveu um tempo na Europa, na França, e isso lhe deu um distanciamento para olhar a sociedade dos EUA com todas as suas contradições. A radicalização dos anos 1960 meio que o deixou de lado, mas creio que hoje há um retorno a seus escritos. É impossível refletir sobre a identidade negra, na América, sem fazer referência a James Baldwin e seus ensaios.”

    De cara, no próprio filme, Peck conta que se inspirou num projeto inacabado de Baldwin, um livro sobre três lideranças que foram assassinadas na época do movimento por direitos civis. Dois deles são conhecidíssimos em todo o mundo, Malcolm X e Martin Luther King. O terceiro não é menos importante, Medgar Evers. “Acho que o mais difícil nesse filme foi encontrar o link entre cada um deles e o que ocorria na América e relacionar com o próprio James, que vivia um momento particular de sua vida. Porque o filme é, acima de tudo, sobre a construção da imagem do negro.”

    O diretor fez uma pesquisa acurada. Obras de ficção, de propaganda, cinejornais. É interessante ver como já antes da integração a publicidade retratava um segmento da classe média negra em condições de consumir. “Associamos tanto consumismo com alienação que deixamos de reconhecer que a integração, no mundo capitalista, passou por aí. Era impossível continuar não reconhecendo uma parcela tão significativa de consumidores.”

    As discussões mobilizam personalidades públicas como Marlon Brando, o diretor Joseph L. Mankiewicz, Sidney Poitier e Harry Belafonte. “Mas eu não queria ficar só no passado. Era importante trazer essa discussão para o presente. Terminar com esses rostos é tão necessário para mim como ter Samuel L. Jackson não como narrador, mas como a voz que interpreta aquelas palavras e lhes dá sentido. E Sam tem a credibilidade das ruas, é outra coisa que queria alcançar.”

    Sobre seu jovem Karl Marx, Peck disse, na apresentação do filme, que viveu na Alemanha numa época em que a leitura de Marx era obrigatória. “Formávamos grupos para estudar suas vida e obra, para buscar o significado nas entrelinhas.” Seu filme sobre o líder revolucionário congolês Patrice Lumumba, assassinado em 1961, é considerado um marco, mas o belo e apaixonado Karl Marx do autor está agora sob suspeita. Isso tem mais a ver com o estado do mundo do que com a obra de Peck. Ele flagra, ficcionalmente, o momento em que Marx e Friedrich Engels, interpretados por August Diehl e Stefan Konarske, trabalham juntos na redação do Manifesto Comunista. Para o bem e para o mal, aquelas frases são imortais – “Um fantasma ronda a Europa (o ano é 1848). É o fantasma do comunismo…” Certamente, não é esse o fantasma que ronda a Europa (e o mundo) atualmente, daí a provocação do filme.

    A maioria está achando O Jovem Karl Marx muito romântico. Peck está sendo cobrado, não pela visão crítica que ele tem de seus personagens, mas pelo que escapa ao conceito do projeto – a condenação dos anos de comunismo que vieram depois. Toda a ‘right wing’ (direita) está lhe cobrando isso.

    Como os rostos no final de Eu Não Sou Seu Negro, O Jovem Karl Marx termina com uma colagem de faces que representam a força e beleza da classe operária, ao som de Like a Rolling Stone, de Bob Dylan.

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