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17 mai

Introdução ao Documentário de Criação

por Gualberto Ferrari

 Os fundamentos do cinema documental são o amor pelos personagens e o tempo que dedicamos a eles durante as filmagens”. Nagisha Oshima

 “O tema dos meus documentários é a vida. Para mim ela é triste, engraçada, trágica, emocionante”. Frederick Wiseman

O “documento de criação” adquire essa denominação e o reconhecimento cultural definitivo na televisão francesa em meados dos 80, e bem mais tarde no audiovisual espanhol. E embora “Nanook, o Esquimó”, de Robert Flaharty, considerando como o primeiro documentário longa-metragem, tenha mais de 80 anos de idade, este gênero cinematográfico só começou a conquistar seu prestígio e aceitação há poucas décadas.

Se ao longo da história do cinema surgem grandes realizadores documentaristas, é na Grã-Bretanha, durante os anos 70, que o documento alcança seu máximo esplendor, produzido e financiado pelo serviço público mais admirado pelos britânicos e nascido no pós-guerra, a prestigiosa BBC Television.

É neste país, graças ao rigor profissional de uma televisão audaz, criativa e independente dos fatores da estrutura do poder público, onde irá se desenvolver o mais intenso e original intercâmbio entre cinema e televisão, em idas e vindas fertilmente enriquecedoras para o audiovisual inglês e o europeu.

Daí nascem os grandes nomes do cinema de ficção que, dos anos 70 em diante, serão os verdadeiros criadores do realismo social, uma estética cuja influência se estende aos países com maior desenvolvimento cinematográfico, como a França, mas também a países da América, como a Argentina.

A maior parte desses diretores, dentre os quais se sobressaem Mike Leigh, Ken Loach e Lindsay Anderson, foram documentalistas para a BBC e, simultaneamente, cineastas de ficção, alternando de um a outro, para enriquecimento de ambos os gêneros.

Durante a década de 90 surge a chamada escola francesa de documentários, distinguindo-se com Nicholas Phillibert, Claire Simon e Denis Geerbrandt, só para citar alguns nomes. O financiamento público e, especialmente, a vontade produtiva do canal ARTE, permitiram que estes inventivos diretores pudessem trabalhar em projetos difíceis e pessoais com poucos recursos, mas com grande liberdade editorial.

Embora o objetivo do seminário não seja o aprofundamento na história do documentário, é importante adiantar que um dos enfoques principais deste projeto universitário é esclarecer e corrigir a errônea confusão que ainda persiste quando comparamos o documentário autêntico de criação (também chamado de documentário de autor ou documentário cinematográfico) com a reportagem jornalística televisiva.

O documentário, também destinado à televisão, é estreitamente aparentado com o cinema de ficção, e muito mais próximo deste que do jornalismo audiovisual, com o qual muitas vezes se confunde. O raciocínio da trama, as regras da construção narrativa, o ritmo da edição e montagem, e sobretudo o ponto de vista do autor, pouco têm  ver com os critérios de informação, de atualidade e de objetividade que deve desenvolver o jornalista, o repórter ou o realizador de programas de TV.

Logicamente, o documentário tem sempre como objetivo a restituição da realidade onde o imprevisível e os elementos incontroláveis do “real” intervém constantemente, ao contrário dos  filmes de argumento ficcional, que se baseiam em elementos textuais (o tratamento e o roteiro técnico) e a direção de atores previamente preparados, que podem ser controlados pelo diretor.

Mas o velho embate entre o documentário e a ficção, aceito convencionalmente até os anos 50, ficou totalmente obsoleto desde o surgimento da nova onda francesa, da tcheca, do Cinema Novo Brasileiro, e do Cinema Cubano, que terminaram por dinamitar as frágeis e movediças fronteiras entre realidade e imaginação.

Todo bom documentário deve ter algo de ficção, e toda película de ficção deve ter algo de documentário”, disse uma vez François Truffaut.

No documentário de autor, a realidade e a imaginação se fundem na visão do diretor, orientadas por um ponto de vista, uma intenção, e um compromisso. Retomando à confusão de gêneros entre reportagem jornalística e documental, poderíamos dizer que talvez essa confusão se dê pela relação mútua dos dois gêneros com o “real”.

Mas à suposta “objetividade” dos programas jornalísticos televisivos, o documentário opõe a subjetividade, a reflexão, a distância/proximidade de um autor/diretor acerca de uma realidade social determinada.

Em suma, e sem receio de cair em simplificações, podemos dizer que qualquer obra documental pertence ao campo artístico (e cinematográfico) e é destinada a perdurar e a testemunhar sobre uma época, enquanto que os programas jornalísticos televisivos, baseados na informação e na atualidade, visam apenas ao imediato.

Nos últimos anos, e imediatamente após as profundas mudanças sócio-políticas e econômicas dos anos 90, o cinema documental da Argentina, que nunca havia sido suficientemente reconhecido, e que tinha praticamente desaparecido do panorama audiovisual do país, emergiu num ato de resistência e numa busca desesperada de retratar essa mudança cultural local, global e sem dúvida irreversível que continua a nos afetar.

Diversos filmes sobre o fechamento de fábricas, a desindustrialização, e grupos grevistas, formaram parte desses novos realizadores, que trabalharam majoritariamente de forma coletiva e associativa.

Esses documentários militantes, que são politicamente engajados e comprometidos com causas sociais de grande importância, outorgaram ao gênero seu velho e nobre dever de ser um ato político e de cidadania. E é lógico que, em conseqüência à terrível crise que se aproximava, esses documentários fossem feitos com raiva e urgência, onde o conteúdo importava mais que a forma , muitas vezes até em detrimento dessa última. Por esse motivo, a temática social e a leitura militante que propõe a maioria dessas produções, deveria complementar-se com um cinema documental mais autoral, onde  reflexão estética também tenha seu lugar nas intenções de futuros realizadores. O documentário, como gênero cinematográfico tem o dever de interrogar, ensinar, entreter o telespectador, sem deixar de ser uma ferramenta crítica, não explicitamente política (as origens sempre o são), na sua forma de interpretar o mundo que nos rodeia.

 

 

 

 

Um comentário

  1. edson geraldo da paixao 01.06.2010

    Para mim,embora não seja um expert no assunto, o
    documentário é como um livro.Tem a mesma importancia,pois guarda para a posteridade, fatos,histórias, situações e manifestações da humanidade e de todos os seres vivos do planeta.O documentário é a mostra de nossa indignação,a percepção da vida,das coisas e do universo.
    a importancia do documentário, está inclusive ,manifestado em seu próprio nome:
    documentário.

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