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15 nov

Mulholland Drive: Cidade dos Sonhos [ Urso de Prata – Melhor Roteiro – Festival de Berlim 2017 ]

Direção – David Lynch
EUA, 2001, 147m
Com Naomi Watts, Laura Harring, Jeanne Bates, Robert Forster, Brent Briscoe, Justin Theroux, Michael J. Anderson

→ 15 de novembro
Horário: 19h40

Entrada R$ 12 / R$ 6 (meia entrada)
Classificação indicativa 14 anos

Sinopse

Quando a morena Rita, machucada e amnésica, encontra a loira aspirante a atriz Barbie Betty, ambas iniciam uma jornada em busca da verdade por trás da identidade de Rita. Ao longo de Mulholland Drive, nada é o que parece. Ambientada no universo irreal de Los Angeles, David Lynch explora a natureza esquizofrênica da cidade numa mistura desconfortável de inocência e corrupção, amor e solidão, beleza e depravação. Lynch constrói habilmente um enigma hipnotizante, impulsionando-nos através de um misterioso labirinto de experiências sensuais até alcançarmos o cruzamento onde sonhos e pesadelos se encontram.

Sobre o filme – Valéria Sotão para Sonhos Cinematográficos

“Imagine que um livro se torna best seller. Todos querem ler, todos adoram o livro e querem tirar dúvidas sobre seu conteúdo. Mas, antes do lançamento, o autor morreu. Então você é obrigado a descobrir as respostas sozinho”. Assim a atriz Naomi Watts faz uma alusão ao enredo aparentemente interminado de “Cidade dos Sonhos” (2001). Lynch teria feito a tal comparação.

O filme traz consigo a polêmica do oito ou oitenta. Ou você o ama ou você o odeia. Mas a impressão que tenho é que somente mentes pacientemente sensíveis podem realmente entrar no clima de gentil recepção necessário para entendê-lo: é preciso estar com as portas da consciência completamente abertas para o novo, o mistério e o pertubador.

Quem gosta de roteiros muito autoexplicativos deve fugir desta obra de David Lynch. O diretor, misterioso por natureza, deixa algumas questões em aberto para que possamos destrinchá-las baseados em nossa própria percepção. Mas Lynch dá dicas, várias dicas. O filme não é tão difícil assim e nem tão insolucionável. A dica é ver mais de uma vez, de preferência várias vezes.

A cada experiência uma nova nuance é revelada. Outros personagens vão ganhando sua atenção. Você se pergunta “O que esses velhinhos realmente significam nesta estória?” ou pergunta “Qual a função de um monstro escondido atrás de uma lanchonete?”. Mas existem sim soluções para essas perguntas. Somente não são soluções óbvias, mas o diretor genial dá várias pistas, quando, por exemplo, usa nomes iguais para personagens diferentes. Uma garçonete chamada Betty vira a ingênua aspirante a atriz de Hollywood representada por Naomi Watts, mas você só descobre isso no fim do filme. E só descobre que Betty era um sonho, uma ilusão, quando o filme entra em sua segunda metade, a metade realista, a metade que corta toda a alucinação que até então, você pensava que era a realidade. Há uma reviravolta.

Você pode pesquisar a opinião dos atores envolvidos, do diretor, mas isso não substituirá sua própria perspicácia. Toda a responsabilidade de entendimento e de sensibilidade para tal é repassada para o telespectador. O filme é claramente dividido em duas partes, radicalmente diferentes, e na segunda você percebe que nada era o que se pensava até ali. Nomes são trocados, ou revelados, temperamentos mudam, atitudes e relacionamentos que pareciam uma coisa se transformam em outra. Em minha percepção, e também nas das atrizes principais da trama, Naomi Watts e Laura Harring (opiniões reveladas em entrevistas), a primeira parte do filme vem do subconsciente de “Betty”, que na verdade não existe, não com esse nome, não a Betty da história da mocinha que chega em Los Angeles e se hospeda na casa da tia que é atriz e rica; e não a Betty que ajuda uma atriz famosa a descobrir quem é depois de perder a memória em um acidente de carro.

O incrível de Cidade Dos Sonhos é que o cineasta explora várias temáticas sem perder a profundidade em nenhuma delas. O nome do filme faz referência à Hollywood, uma cidade onde sonhos são perdidos ou realizados. A cidade onde todos podem se achar ou se perder. A fotografia da obra é incrível e as cenas noturnas são privilegiadas, pois Los Angeles é também uma cidade de luzes coloridas e mistério.

O nome do filme também é uma alusão à trama propriamente dita, que explora, de forma a praticamente destilar, o subconsciente da personagem de Diane (esse era o verdadeiro nome de Betty), que se apaixonou por Camila Rhodes (Laura Harring) e por tudo que ela representa. Camila está onde Diane sempre quis chegar. É uma atriz bem sucedida, poderosa e sexy. Esse envolvimento é baseado em atração, paixão e principalmente por uma obsessão motivada provavelmente pela inveja ou pela admiração excessiva de Diane por Camila. Tudo isso fica muito claro na segunda metade, quando Camila rompe o envolvimento sexual entre as duas porque agora está apaixonada pelo diretor do filme em que Camila terá o papel principal; filme e diretor estes que estão costurados no enredo do início ao fim. Na cena seguinte ao rompimento, Diane fica desesperada em uma cena de choro e masturbação, sobre a qual a atriz Naomi Watts comentou ter se sentido humilhada em fazer. Enfim, tudo parece ter dado errado para Diane e seu desejo não se realizou na cidade dos sonhos.

David Lynch entra na mente de Diane e lá encontram-se sonhos, medos, pesadelos, ilusões. Pessoas viram outras pessoas, como realmente acontece nos sonhos da vida real. Coco, por exemplo, que em sonho era a síndica do condomínio da tia de Diane (até então Betty) é na verdade uma pessoa de um ambiente totalmente diferente. Um albino vestido de cowboy, que fazia parte da máfia da produção do filme, reaparece rapidamente na cena de uma festa na casa do diretor Adam Kesher (Justin Theroux), e talvez essa rápida aparição final tenha passado despercebida por muitos que viram o filme. Parece uma “pegadinha” do Lynch, que brinca com mensagens subliminares. O cowboy, que mandava mensagens dos produtores (e agora donos) do filme para o diretor Adam Kesher de forma ameaçadora, agora estava ali, na casa do cineasta, em sua festa. Mais um aspecto confuso da parte que é sonho.

Lynch encontra ainda espaço para denunciar eventos que provavelmente acontecem de verdade em Hollywood. Todo esse clima de conspiração, de máfia de produtores, do diretor que perde seu filme para os que o financiam, é um retrato, meio exagerado talvez, mas é um retrato do que pode se tornar a arte quando transformada em indústria. E esse clima conspiratório é muito bem colocado na primeira parte de Cidade dos Sonhos.

Na primeira metade, Betty (que ainda não sabemos que é Diane) chega ao aeroporto de L.A acompanhada de dois idosos. Esses velhinhos também entrarão nos piores pesadelos de Diane, uma vez que eles foram a simpatia que virou ironia do destino. Uma boa recepção, um final trágico. Há também uma misteriosa chave que abre uma caixa e essa caixinha aparece, em uma cena, nas mãos do monstro que fica atrás da lanchonete. Pode-se interpretar livremente. Chave para a realidade, para os sonhos, para a fama, para o quê? Betty quer a morte de Camila. Betty quer a chave que abre as portas para seus desejos. Mas como conseguir tal feito se na realidade tudo é tão diferente? Não há orquestra. Não há banda. É tudo uma gravação. Silêncio.

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